O roubo do romantismo
Joãozinho está brincando sozinho no
campinho de terra quando chuta a bola com tanta força que ela cai no meio do
matagal ao lado. Foi até lá procurá-la. Anda para lá e para cá até que cai em
um buraco de uns três ou quatro metros de profundidade,
camuflado pela folhagem. Fica atordoado
por alguns instantes até recobrar os sentidos. Está todo dolorido e mal consegue mexer a
perna esquerda. Ela dói muito. Acha que está
quebrada.
Com certo esforço, consegue pegar o celular no bolso da bermuda
e liga para sua mãe, que imediatamente aciona o Corpo
de Bombeiros. Meia hora depois, Joãozinho está são e salvo nos braços de sua
mãe.
Esta história seria muito diferente
em outra época do passado.
O início é o mesmo.
De dentro do buraco escuro, Joãozinho só consegue ver a entrada lá em cima. Não há
como escalar as paredes de terra, aliás, mal consegue se levantar, sua perna
está doendo cada vez mais. Entra em pânico e começa a chorar.
Hora do almoço. Dona Selma, sua mãe, vai procurá-lo na esquina onde
costuma ficar com os amigos e lá ele não está.
Depois, vai até a quadra de esportes, em seguida
na casa do Miguel e na do Amadeu e não encontra seu filho. Aborda alguns garotos pelas ruas e ninguém sabe do paradeiro
do Joãozinho. Dona Selma começa a se preocupar. O instinto de mãe entra
em estado de alerta e continua a procurá-lo pelas ruas do bairro.
Quase uma hora de procura
se passou. Dona Selma
está desesperada. Já pressentia que alguma coisa ruim havia acontecido. Sempre
tem esta sensação quando seu braço direito começa a formigar.
Volta para casa e liga para o marido.
Seu Paulo diz a ela para não se preocupar e que
Joãozinho está com onze anos e é um menino responsável. Que deve estar na casa
de alguém ou foi até fora dos limites do bairro com algum coleguinha. Isto não
tranquilizou dona Selma, que volta para a rua à procura de seu filho.
Encontra algumas conhecidas que a
ajudam a procurar o menino. Às três e meia da tarde, dona Selma vai até a
delegacia dar queixa do desaparecimento de seu filho. O policial de plantão
envia mensagem a todas as viaturas da região e dona Selma volta para sua casa. Suas amigas tentam acalmá-la, mas o
desespero já toma conta do seu emocional, tirando-lhe a razão.
Dentro do buraco escuro e úmido,
Joãozinho chora desesperado. Já não tem mais voz para gritar. A dor em sua
perna começa a ficar insuportável.
Dona Selma volta a ligar para o
marido, que percebe que a situação é grave. Seu Paulo sai do trabalho e segue para sua casa,
onde encontra uma pequena multidão de vizinhos e amigos. O vizinho Osvaldo, um
policial aposentado, organiza um grupo para procurar o menino.
Já era quase noite quando o Marino,
sobrinho de dona Selma, entrou na casa da tia correndo e esbaforido, avisando
que encontrou o Joãozinho. Dona Selma sai em disparada para o local enquanto
uma das vizinhas liga para a polícia e para o Corpo de Bombeiros.
Dona Selma, emocionada,
conversa com seu filho tentando confortá-lo enquanto ele se queixa da dor forte
na perna. Os bombeiros
afastaram os curiosos de perto do buraco, pois estavam mais atrapalhando do que
ajudando. Em seguida, improvisam uma iluminação e um bombeiro se amarra em uma
corda e desce no buraco escuro. Minutos depois,
Joãozinho estava são e salvo nos braços de sua mãe.
Texto extraído do livro: Crônicas
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