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Fora de lugar

O futebol é maravilhoso! Os dribles. Os lances. As cabeçadas. O gol. Como é bonito driblar um, dois, três jogadores e marcar um belo gol que leva a torcida ao delírio! Que belo espetáculo! Como eu invejava meus amigos bons de bola. Eu, além de ter medo da bola, sempre tropeçava nela, levando a galera a cair na risada. Eu não gostava de futebol. Sabia apreciar e valorizar, mas era muito perna de pau. O que eu gostava mesmo era de música. Adorava ouvir rock e colecionava discos de vinil, os tais bolachões, alguns com capas magníficas. Os meninos se dividiam em três grupos: os que gostavam de futebol, os que gostavam de skate e os que não gostavam de nada disso e de quase nada também, como eu. Todo adolescente sonha em brilhar, ser notado, ser popular. É natural da idade. Eu, o garoto magrelinho e tímido, entrei numa de sair da invisibilidade e impressionar, principalmente, as meninas, que só tinham olhos para os bons em futebol e skate. E eu estava fora dos dois grupos. Meu amigo Mauro e...

Neve

Em nosso querido planetinha azul, acontecem inúmeros fenômenos naturais que intrigaram muitos pensadores no passado, mas nossa boa ciência já tratou de explicar todos, portanto, não há mais mistérios. Um desses fenômenos é a evaporação da água. Um mundão de partículas de água flutuando no ar, levadas daqui para lá, e de lá para cá, pela ação do vento. Elas são muito sociais, gostam de andar juntas e formam nuvens branquinhas, cinzas e pretas. Essa última é a perigosa, sempre aparece acompanhada de trovões, relâmpagos, raios e muita chuva. Isso, aqui nos trópicos, lá em cima do hemisfério norte e aqui embaixo do hemisfério sul, esse vapor de água encontra um frio de lascar taquara e se cristaliza formando a tal de neve, caindo em forma de chuva. Nas fotos, parece muito bonito o cenário todo branquinho, como se a paz reinasse por todos os cantos e os turistas estivessem felizes. Um amigo meu que é russo me disse que neve só é boa para estes turistas felizes. Segundo palavras dele: Viver ...

Do pó à lama

— Mãe, água é a melhor coisa do mundo! Severino nasceu no início de uma seca que castigou a região por quase sete anos. Pouco tempo após sair da primeira infância, viu pela primeira vez a tão falada água cair do céu. Ajoelhou-se no chão úmido com seus pais e irmãos, agradecendo a Deus pela dádiva. Logo depois, saiu correndo com os braços abertos como se quisesse abraçar todos aqueles pingos de água. A água encharcou o chão, brotando verde aqui e ali, e seu pai plantou as sementes do alimento dos próximos meses. Toda a alegria do pequeno Severino durou pouco. A seca voltou e se estendeu por mais alguns anos e ele viu novamente o solo esturricar e a criação morrer de sede. Invejava aqueles que moravam no sul, onde a água é abundante. Fechava os olhos e dava asas à imaginação quando ouvia o cancioneiro cantar “O sertão vai virar mar”*. Também invejou Noé quando conheceu a história do dilúvio. — Mãe, água é o símbolo da vida! Cresceu vendo sua mãe e suas duas irmãs caminharem, diariamente,...

Papel de pão

É comum as aptidões surgirem na infância. Meu amigo Fernandinho com oito anos já era um baterista. O Renatinho, da mesma idade, tocava saxofone. A Fátima bordava quase tão bem como sua mãe. O Norinho roubava coisas. O Valter sacaneava todo mundo, e eu, gostava de desenhar. Todos os dias de manhã meu pai comprava um filão de pão que vinha enrolado numa folha de papel celofane, que chamávamos de papel de pão. Ele guardava todos, pois sabia que eu gostava de usá-los para desenhar. Eram ótimos para isso. Eu também gostava de desenhar no asfalto com cacos de argila colorida. A rua ficava toda enfeitada. Vinham os carros ou a chuva e apagavam meus desenhos, mas eu não me incomodava e desenhava tudo de novo. Cresci e estudei desenho. Adorava desenhar. Passava horas na escrivaninha de meu quarto treinando e enchendo o cestinho de lixo com papéis embolados. Um dia meu pai entrou no meu quarto e ficou me observando desenhar. O seu Antônio era um homem muito simples que sempre teve uma vida dura ...