O muro

A casa de número 122 era a mais antiga do bairro. Na verdade, um casarão lá dos idos de não sei quando. Nem era nascido quando foi edificada! Há pouco tempo foi vendida e, no enorme terreno, construíram um edifício de vinte andares, que abrigará dezenas de famílias. O prédio está pronto e agora é feito um bonito trabalho de paisagismo nas áreas livres e na entrada.
 
O muro do lado direito da antiga casa faz divisa com uma pracinha, onde as crianças brincam na grama, andam de bicicleta pelos passeios e os adultos passam o tempo conversando ou mesmo passeando com seus cachorros.
 
Uma extensa faixa gramada ladeia o muro e, no início dele, uma placa que a prefeitura afixou, avisando os moradores que é proibido jogar lixo naquele local.
 
Diariamente, por volta das oito horas da noite, levo meus dois cachorros para passearem na pracinha: o Mike e a Quica, cinco e quatro anos de idade, respectivamente. Eles adoram o cheiro da grama e, diferente de onde moram, podem correr à vontade
 
Os cachorros eram filhotes quando começaram a frequentar o grande gramado, e foi nesta época que reparei que atrás da placa morava um filhotinho de lagartixa, que se aproveitou das imperfeições do reboque e fez dali sua toca, e sempre se assustava e corria para se esconder quando os dois cachorros apareciam.
 
A pequena tixa foi crescendo ali sob o calor do verão, o frio do inverno e se aproveitando da benevolência das chuvas, que faziam os insetos do gramado subirem o muro, e ela, esperta, se fartava de alimento. Com o passar do tempo, ela foi perdendo o medo dos cachorros, pois não avançavam nela, e eu sempre que a via dizia um simpático Oi, Tchutchuca! E este longo convívio pacífico durou até ontem.
 
Os cachorros estavam, como sempre, andando para lá e para cá, farejando tudo, mas eu estava estático. Não acreditava no que estava vendo à minha frente. Meus olhos piscaram como se se preparassem para derramar uma lágrima. Uma tristeza invadiu minha alma. O muro havia sido demolido e a placa estava soterrada no meio da montanha de entulho.


Mar/2017
Texto extraído do livro: O menino que cresceu

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