Do pó à lama
— Mãe, água é a melhor coisa
do mundo!
Severino nasceu no início de uma seca que castigou a região por quase sete anos. Pouco tempo após sair da primeira infância, viu pela primeira vez a tão falada água cair do céu. Ajoelhou-se no chão úmido com seus pais e irmãos, agradecendo a Deus pela dádiva. Logo depois, saiu correndo com os braços abertos como se quisesse abraçar todos aqueles pingos de água.
A água encharcou o chão, brotando verde aqui e ali, e seu pai plantou as sementes do alimento dos próximos meses.
Toda a alegria do pequeno
Severino durou pouco. A seca voltou e se estendeu por mais alguns anos e ele
viu novamente o solo esturricar e a criação morrer de sede.
Invejava aqueles que moravam no sul, onde a água é abundante. Fechava os olhos e dava asas à imaginação quando ouvia o cancioneiro cantar “O sertão vai virar mar”*. Também invejou Noé quando conheceu a história do dilúvio.
— Mãe, água é o símbolo da vida!
Cresceu vendo sua mãe e suas duas irmãs caminharem, diariamente, alguns quilômetros para buscar água suja de um poço, debaixo do sol escaldante do sertão, equilibrando latas d’água na cabeça. Água que servia para beber, cozinhar o feijão, regar alguns pés de macaxeira, dar de beber para a criação que sobrou: uma vaquinha magricela e duas cabritas secas e, às vezes, tomar um banho minguado.
Severino se acostumou com aquela vida sem água e sol quente. Olhava o céu azul com algumas nuvens de algodão e pedia a Deus que mandasse chuva. Muita chuva! Repetia o pedido todas as noites antes de dormir e na missa de domingo. Sonhava com a água encharcando o solo, enchendo os açudes e rios.
— Água. Não existe nada melhor e mais importante!
Aos dezenove anos, recebeu uma carta de seu primo Márcio, onde dizia: Vem pra São Paulo. Aqui não falta emprego e nem água. Severino pediu dinheiro emprestado para seu tio e embarcou num ônibus para a capital dos sonhos e realizações.
Quando chegou à rodoviária,
estava chovendo. Desceu do ônibus, abriu os braços e agradeceu: Obrigado, meu Deus! Estou no paraíso! Na bagagem:
duas camisetas velhas, uma bermuda e a expectativa de uma vida melhor e farta.
O chinelo estava no pé e a fome era de leão.
O primo o esperava. Rumaram
para o pequeno barraco construído com sobras de madeira na encosta de um
barranco íngreme, e poucos dias depois o sonhador Severino já estava
trabalhando como ajudante de pedreiro.
Era novembro, início da
estação das águas, e o Severino estava encantado com tanta chuva. O barraco
cheio de goteiras e o barranco ameaçando desmoronar sobre seu lar não o
incomodava. Era água em abundância, e água era tudo que ele sempre sonhou.
Severino completou um mês de
trabalho e recebeu seu primeiro salário. Deu uma pequena ajuda ao primo,
comprou umas roupinhas, guardou um pouquinho, comprou um relógio de pulso e foi
se divertir. Estava chovendo quando entrou no inferninho. Água, forró, vadias e
dinheiro no bolso. Severino estava no paraíso e sabia disso.
Saiu lá pelas tantas da
madrugada. Chovia forte. Não se incomodou e foi embora a pé, feliz da vida como
se fosse um Gene Kelly sem guarda-chuva. No meio do caminho, a chuva piorou.
Procurou abrigo embaixo de uma marquise. A chuva engrossou e a água na rua
começou a subir, subir e subir. Severino saiu dali e, inexperiente, caminhou no
meio da enxurrada. A correnteza foi ficando cada vez mais forte e ele,
desesperado. Não tinha para onde ir.
Durante anos, Severino sonhou,
desejou e implorou por chuva e naquela madrugada o seu maior desejo o arrastou
para o fundo de um leito barrento.
* Antônio Conselheiro
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