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Mostrando postagens de abril, 2026

Uma noite fria

No piso gelado da calçada, um homem descansa seu corpo envelhecido sobre uma lâmina de papelão, outra um pouco maior, o cobre. A crueldade do frio não o deixa dormir. O corpo está cansado pelo esforço de andar o dia inteiro à procura de pequenos objetos no lixo, que vendeu e comprou alimento. Também está cansado pelo desgaste físico acelerado pela vida sedentária, a bebida e a desilusão. Lembranças nostálgicas tomam conta de sua mente. Tenta desviar o pensamento para fatos mais recentes, porém, uma força maior que sua vontade traz de volta velhas recordações que imaginava já terem sido apagadas pelo tempo. Lembra-se de quando era um menino cheio de sonhos que iria conquistar o mundo e, presunçoso, de entrar para a história, e ao envelhecer olharia para trás orgulhoso do caminho que trilhou, de suas grandes realizações e de ter deixado sua prosperidade: seu nome marcado na carne de filhos e netos. Sua mente insiste em revisitar mais lembranças, como a Rose, sua paixão de adolesc...

A princesa e o sapo

Glorinha cresceu romântica e sonhadora. Os livros de contos de fadas eram suas melhores companhias. Devorava as histórias e as fantasiava em sua mente. Esperou cada segundo de sua vida pelo grande dia em que encontraria seu sapo, depois beijá-lo amorosamente e vê-lo se transformar num lindo príncipe encantado, casar-se e viver feliz para sempre ao seu lado no mais belo dos castelos. O grande dia chegou aos dezessete anos. O príncipe não era exatamente um nobre. Era um caminhoneiro. Casou-se grávida. Aquele castelo de inúmeras dependências e serviçais era, na verdade, dois cômodos construídos às pressas nos fundos do terreno da casa dos sogros. Alguns anos se passaram. Um, dois, três filhos sem sangue nobre. Seu lindo corpinho de princesa agora está mais para Madame Min. O príncipe, mais para Frei Tuck. Engordou, cresceu barriga de cerveja e ficou careca. Passaram-se mais alguns anos. Os três meninos cresceram e não se casaram com princesas. O príncipe morreu jovem. Não em u...

Rico por um dia

O Ricardo é um cara simples e de origem humilde, e com muito sacrifício tenta concluir a faculdade. Conseguiu seu primeiro emprego: um estágio na área de marketing em uma agência de propaganda bem longe de sua casa. A agência promoverá o lançamento de uma coleção de joias de uma grande grife a ser realizado no salão de eventos de um hotel cinco estrelas. O Ricardo está muito animado, pois, além de acompanhar seu chefe, o Paulo, pela primeira vez na vida, irá a um local tão chique.   O hotel é um desbunde. Chique é pouco para defini-lo. No salão, gente bonita e elegante circulando e conversando educadamente. O Ricardo está vislumbrado. — Paulo, quanta mulher bonita! E essa mesa de queijos é maior que a lojinha de frios lá do bairro! A de vinho se parece com uma adega! E a de pães e patês, deixa a padoca lá da vila no chinelo! — Pega leve e com educação, Ricardo. Não me faça passar vergonha! — alertou o chefe. O Ricardo está impressionado com tanta comida boa, mas não tira...

Fora de lugar

O futebol é maravilhoso! Os dribles. Os lances. As cabeçadas. O gol. Como é bonito driblar um, dois, três jogadores e marcar um belo gol que leva a torcida ao delírio! Que belo espetáculo! Como eu invejava meus amigos bons de bola. Eu, além de ter medo da bola, sempre tropeçava nela, levando a galera a cair na risada. Eu não gostava de futebol. Sabia apreciar e valorizar, mas era muito perna de pau. O que eu gostava mesmo era de música. Adorava ouvir rock e colecionava discos de vinil, os tais bolachões, alguns com capas magníficas. Os meninos se dividiam em três grupos: os que gostavam de futebol, os que gostavam de skate e os que não gostavam de nada disso e de quase nada também, como eu. Todo adolescente sonha em brilhar, ser notado, ser popular. É natural da idade. Eu, o garoto magrelinho e tímido, entrei numa de sair da invisibilidade e impressionar, principalmente, as meninas, que só tinham olhos para os bons em futebol e skate . E eu estava fora dos dois grupos. Meu amigo Mau...