A vizinha e o herói

A dona Janete era uma mulher bem alegrinha e mãe do Fernandinho e da Soninha. Duas coisas eu não gostava nela: a mania de ficar me dando broncas e o seu sorriso. Eu dizia para minha mãe que a dona Janete tinha um sorriso arreganhado, e ela me corrigia: Arreganhado não, forçado! Mas a dona Janete tinha outras duas coisas que eu adorava: uma geladeira e uma TV! Geladeira era um item caro para os pobres como meus pais, e a TV um luxo mais caro ainda. O seu Cláudio, marido da dona Janete, tinha um bom emprego e podia dar à sua família o que o meu pai ainda não podia dar a dele.

Todo domingo de manhã, após voltar da igreja, eu, meus irmãos e mais algumas crianças da rua invadíamos a sala de estar da casa da dona Janete para assistir a um seriado de bang-bang na TV em preto e branco. Incrivelmente, ficávamos em silêncio, olhos e ouvidos atentos às cenas e diálogos do nosso herói enfrentando homens malvados e cruéis. Nossa atenção só era quebrada quando a dona Janete vinha nos servir limonada geladinha. Todo domingo, nosso herói começava o seriado escapando de uma armadilha em que caiu no final do capítulo anterior. E o capítulo de hoje não será diferente e passaremos a semana inteira ansiosos em saber como ele escapará dessa nova armadilha.

Poucos anos depois, me sentia um garoto afortunado tomando limonada geladinha, vinda da geladeira que meu pai comprou com muito sacrifício, assistindo seriados na TV preto e branco na sala de minha casa.
Meus heróis da infância escaparam de inúmeras armadilhas e, inevitavelmente, morreram com o tempo, mas deixaram em minha geração valores éticos e morais que morrerão conosco.

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