Entrevista com o cachorro Eugênio

Na fazenda Esperança, o único cão da propriedade se posiciona diante da câmera para ser entrevistado.

 

Qual seu nome?

Eugênio.

 

Tem apelido?

Sim. Genóca.

 

É bom ser um cachorro de fazenda?

É bom sim! Nóis, os cachorro, a gente somos muito esperto e inteligente, ao contrário da maioria dos bicho aqui da fazenda. É um bando de cabeçudo!

 

Genóca, você não acha que cada bicho tem o seu próprio jeito de ser?

Acho. Mas tem alguns que não dá pra engolir!

 

Quais?

As cabra são teimosas. Como é difícil elas aprender alguma coisa!

 

Você tem alguma função específica aqui na fazenda, ou é só um cachorro como qualquer outro?

Não! Eu sou o guarda daqui! Não deixo nenhum estranho entrar sem dar o alarme e se ele insistir eu vou direto na canela dele e mordo pra valer! Além disso, ajudo o patrão, que é meu dono, a cuidar dos bicho e principalmente das cabra.

 

Então você é como um cão pastor?

O que é isso?

 

Cão pastor é aquele que guia as ovelhas para que elas não saiam de junto das outras.

Aqui não tem esse bicho não, moço! Aqui só tem cabra, vaca, porco e galinha.

 

Tudo bem. Vamos continuar. Você gosta de cuidar dos bichos?

Gosto e eles me respeitam muito!

 

Você é o mandachuva dos bichos daqui?

O patrão, meu dono, disse que só as nuvem do céu manda chuva.

 

Certo! Você tem filhotes?

Não.

 

Pretende ter?

Se aparecer alguma fêmea por estas bandas... Sim. Nesse fim de mundo só tem eu de cachorro... Nunca vi outro da minha espécie... E muito menos uma fêmea.

 

Espero que um dia você encontre uma companheira. Tem alguma coisa que você não gosta aqui na fazenda?

Eu já me acostumei com tudo aqui. Às vezes me irrito com as cabra. Ô bicho destruidor, teimoso e fedorento! Pra dizer a verdade, odeio cabra! Por onde elas passam destroem tudo! Certa vez elas invadiram o jardim da patroa, minha dona, e comeram tudo! Não sobrou uma plantinha pra dizer: Aqui era um lindo jardim!

               

Sua patroa deve ter ficado muito brava?

Nossa! Ela virou uma onça de braba! Disse gritando que se o patrão não vendesse todas as cabra, os empregado iam comer buchada de bode o ano inteiro!

 

Pelo que vejo aqui isso não aconteceu?

Não. As cabra dá leite.

 

O que mais você não gosta aqui na fazenda? Além das cabras?

De trovão! Fico apavorado. Eu sou um cachorro muito corajoso e valente. Já enfrentei até cobra! Mas de trovão eu morro de medo.

 

Ok!

Ah! Tava esquecendo. Aqui na fazenda tem um empregado que o patrão disse que ele é um imprestável. Não vale nem um saco de estrume. Minha patroa diz que ele é um cachorro. Ele não é um cachorro e eu não sou um imprestável. Fico ofendido quando a patroa chama ele de cachorro.

 

O que você mais gosta de fazer?

Comer! Roer osso também. Ah! Adoro dormir depois do almoço.

 

Certo. Mas do seu trabalho o que você mais gosta de fazer?

Ah sim! Gosto de pôr as cabra na linha! O patrão solta as bichinhas pra pastar e elas querem sair do rebanho, então eu corro atrás delas latindo bem alto. Elas voltam pro rebanho com medo de mim.

 

Vejo que seu trabalho é tranquilo e legal. Alguma reclamação?

Só uma. A cabrita Jurema. Ô cabrita idiota! Ela é uma praga! É boca dura e teimosa. Tenho certeza que foi ela que incentivou as outras cabritas a invadir o jardim da patroa. Também a invasão do paiol de milho. E também da lavanderia. Comeram um monte de roupa da patroa e as cueca do patrão. Ela é uma agitadora! Uma terrorista!

 

Mas sem provas não dá pra culpá-la.

É, mas um dia ainda pego aquela peste com a boca na botija.

 

Qual sua idade?

Quantos anos eu tenho? Seis anos!

 

É bem jovem ainda!

Sou.

 

Tem algum sonho que deseja realizar?

Encontrar uma fêmea.

 

Você se sente um cachorro solitário?

Sim. Eu amo a patroa e o patrão, mas eu sinto falta de uma fêmea, ou mesmo de um amigo. A única fêmea que eu conheci foi minha mãe quando era um filhotinho. Aqui na fazenda todos os bichos têm a companhia de outros de sua espécie. Menos eu. Nunca conheci outro cachorro. Só ouvi falar.

 

Realmente deve ser muito chato!

É muito ruim.

 

Genóca, obrigado pela entrevista.

De nada!


Abr/2012
Texto extraído do livro: Coisas de bichos

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