Ironia

O homem churrasco. Assim, seu Jaime era conhecido pelos amigos, parentes e vizinhos. Era todo final de semana e não perdia uma oportunidade entre segunda e sexta-feira que também justificasse assar umas carninhas. Era tão fissurado por carnes que tentou abrir um açougue, mas não deu certo e continuou sendo engenheiro.

Após se divorciar, foi morar sozinho numa casa térrea. No quintal, construiu uma churrasqueira moderna com todos os apetrechos de um bom churrasqueiro, além das coleções de aventais, espetos e facas de que se orgulhava tanto.

No sábado passado, após um churrasco com os amigos e regado a muita cerveja, já mamado, seu Jaime deitou-se no sofá fumando. Adormeceu. Ou melhor, capotou. O cigarro desprendeu-se de seus dedos, caindo no tecido do sofá. A brasa penetrou o tecido e foi se espalhando entre a palha de enchimento, queimando-a lentamente sem incendiar.

Na segunda-feira, pela manhã, os vizinhos estranharam o carro do seu Jaime ainda na garagem e o cachorro, desesperado, latindo muito. Chamaram os policiais desconfiados de que algo estava errado.

Os homens do resgate retiram o corpo do seu Jaime naquele invólucro funerário aluminizado, diante da vizinhança curiosa. Um dos atendentes disse a um morador que ele morreu... Assado.



Dez/2015
Texto extraído do livro: Coisas da vida

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