Ironia
O homem churrasco. Assim,
seu Jaime era conhecido pelos amigos, parentes e vizinhos. Era todo final de
semana e não perdia uma oportunidade entre segunda e sexta-feira que também justificasse assar umas carninhas. Era tão
fissurado por carnes que tentou abrir um açougue, mas não deu certo e continuou
sendo engenheiro.
Após se divorciar, foi morar sozinho
numa casa térrea. No quintal, construiu uma
churrasqueira moderna com todos os apetrechos de um bom churrasqueiro, além das
coleções de aventais, espetos e facas de que se
orgulhava tanto.
No sábado passado, após um churrasco
com os amigos e regado a muita cerveja, já mamado, seu Jaime deitou-se no sofá
fumando. Adormeceu. Ou melhor, capotou. O cigarro desprendeu-se de seus dedos,
caindo no tecido do sofá. A brasa penetrou o tecido e foi se espalhando entre a
palha de enchimento, queimando-a lentamente sem incendiar.
Na segunda-feira, pela
manhã, os vizinhos estranharam o carro do seu Jaime ainda na garagem e o
cachorro, desesperado, latindo muito. Chamaram os policiais desconfiados de que
algo estava errado.
Os homens do resgate retiram o corpo
do seu Jaime naquele invólucro funerário aluminizado,
diante da vizinhança curiosa. Um dos atendentes disse a um morador que ele
morreu... Assado.
Texto extraído do livro: Coisas da vida
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