O almoço de domingo

Tem pessoas que nascem com o dom de ser palhaço. Não aquele de circo, mas aquele que faz todo mundo rir com seu jeito de ser, além de, na maioria das vezes, ser uma pessoa muito legal. Lógico que existe aquele que se acha palhaço e torna-se um chato de galocha.

O Mustafá não era exatamente um palhaço. Era engraçado, espirituoso e muito zoeiro. Zoava até com as professoras. Filho de libaneses, o mais alto da turma e o único que tinha barba. Uma barba tão cerrada que se parecia com pelúcia de ursinho.

Era o terceiro ano do colégio e antes de completarmos um mês de aula ele percebeu que a turma do fundão era bem mais divertida e alegre que os aplicadinhos lá da frente. Se juntou a nós e em pouco tempo nos tornamos bons amigos.

Ele gostava muito de mim. Um dia me disse que me levaria para almoçar com sua família num domingo a ser marcado. Repetiu essa intenção várias vezes durante o primeiro semestre. Logo após as férias do meio do ano ele me procurou e disse: Domingo que vem! Você vai comer uma dobradinha maravilhosa que só minha mãe sabe fazer! Disse a ele um não gigantesco e concluí: Nem pensar! Não como essa encrenca nem pagando. Só de pensar nela já me dá nojo. Ele riu bastante e depois desmentiu: Tô zoando com você! Eu sei que você odeia dobradinha. Minha mãe vai fazer um prato libanês. Comida boa e gostosa!

Família grande a do Mustafá. A casa estava lotada. Tinha gente até saindo pelo ladrão! Barulhenta também. O povo falava alto e ria muito. 

O pai do Mustafá, seu Kaled, me disse assim: Se é amigo do meu filho, é amigo nosso também!

Eu estava um pouco tímido. Não conhecia ninguém além do meu amigo. Estranhei aquela gente barulhenta. A minha família é bem comportada e quieta. Aos poucos fui me soltando e me enturmando. Me trataram muito bem e em alguns momentos até paparicado.

Mais da metade dos parentes foram embora antes de servir o almoço.

Bom. Chegou a melhor hora. A de comer. Eu já estava transparente de fome. Nos sentamos todos em volta da grande mesa oval. No centro dela um panelão tampado. Muito bonito e de inox que se parecia com um espelho. A mãe dele, dona Samira, me disse: Fiz com muito capricho. Meu filho me disse que você adora esse prato!

Olhei para o Mustafá meio desconfiado e ele exibia um sorriso sarcástico. A mulher tirou a tampa do panelão e disse: Dobradinha! Fiz cara de quem ganhou na loteria. Olhei para o Mustafá e ele acenando com o dedo indicador reforçou: E com grão-de-bico! Seu sorriso sarcástico emendou com as orelhas.

A mulher pegou uma concha do tamanho de uma pá de pedreiro e me serviu. Quase transbordou meu prato fundo. Eu não podia fazer uma desfeita para aquela mulher. Respirei fundo e comecei a comer os ingredientes. Quando chegou a vez do bucho, engolia sem mastigar aquela borracha branca e tomava água em seguida.

Consegui terminar a sessão de tortura batendo a mão de leve na barriga dizendo: Tô satisfeito! O seu Kaled me disse: Mas já! Você comeu muito pouco! Pegou a pá de pedreiro e encheu meu prato de novo. Coma! Coma bastante! Disse o homem. O semblante do Mustafá era só alegria.

Repeti o processo de engolir a carne, mas dessa vez, não fui tão rápido e deixei metade do prato alegando que “Não cabe mais nada”.

Finalmente aquela tortura gastronômica acabou e logo em seguida me despedi dos anfitriões elogiando a recepção e o prato.

O Mustafá me acompanhou até o portão rindo muito. Disse a ele: Cara, sua família é ótima! Você não! Pode ter certeza que vou me vingar de você! Ele riu de segurar a barriga.

O ano letivo acabou e não consegui achar uma vingança a altura da dobradinha. Nos formamos e nunca mais nos vimos, mas ficou a lembrança desse dia. A lembrança de pessoas tão amáveis e de um amigo tão zoeiro.

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