O ontem e o hoje

O calor é intenso. Do chão sobe um mormaço que embaça a paisagem. Uma caminhada de poucos metros ao ar livre cansa muito e nos faz sentir com o dobro do peso, além do ar seco difícil de respirar. O céu está limpo e sem nuvens como sempre, para dizer a verdade, raras vezes o vi de outra forma, no máximo alguns fiapos de algodão que passeiam timidamente no meio do azul anil como prenúncio do que demorará muito a acontecer: chover.

Apesar do calor, é bom viver nesta cidade. Boas moradias e infraestrutura que atende às nossas necessidades básicas. Uma cidade tão normal como qualquer outra.

Da janela, posso ver ao longe o horizonte retilíneo dividindo a paisagem com o amarelo do sol e o azul do mar. Se misturarmos as duas cores, teremos uma que não se vê mais: o verde. Sobre o mar, a grande plataforma de captação de água e, no continente, a usina de produção de água potável com seus enormes reservatórios. À minha esquerda, a zona de plantio de alimentos em estufas imensas que garantem o sustento de toda a cidade. À direita, a usina geradora de energia que faz desta cidade um grande mecanismo vivo.

Estou há trinta e dois andares acima do nível da rua. Lá embaixo tudo parece pequeno. Mas não, vivemos em um mundo onde tudo é gigantesco: prédios, usinas e estufas. Um aglomerado de pessoas vive nestes prédios como abelhas numa colmeia, como vemos em filmes antigos sobre o mundo animal.

O elevador desce no ritmo de sempre. Cumprimento os moradores que conheço e observo os que são novos ou que nunca reparei. No primeiro subsolo, descem uma pequena parte, os que têm seu próprio veículo de locomoção. Eu e o restante descemos no segundo para, em metrôs, seguirmos em galerias subterrâneas que nos levarão aos nossos destinos.

Meu local de trabalho fica do outro lado da cidade, na divisa com o grande deserto, em um laboratório onde são criadas técnicas de fertilização do deserto e desenvolvimento de novas formas de produção de alimentos. Também pesquisam, em outras áreas, meios de deixar o futuro melhor e mais humano.

Os pesquisadores estudam muito sobre nosso passado para poderem entender o mundo em que vivemos e como chegamos a este cenário. Às vezes, acho que é tão difícil para eles, como é para mim, entender a mentalidade do homem do passado do que entender o que aconteceu.

No passado, o mundo foi bem diferente do que é hoje, e não acho que vivemos no pior lugar do mundo. Não é melhor nem pior, é diferente. Se um homem do passado viajasse no tempo e chegasse aqui hoje, ele provavelmente acreditaria estar em outro planeta. Ele notaria semelhanças nas pessoas, mas não reconheceria o ambiente físico. Mas, acho perfeitamente normal ir ao trabalho e ao supermercado por galerias subterrâneas com controle de ar e temperatura. Também que só vemos o sol e a superfície quando estamos em nossos apartamentos olhando pela janela, ou quando entramos em um veículo com ar condicionado que sai de uma garagem climatizada, cruza as ruas da cidade e estaciona em outra garagem também climatizada. Nasci neste mundo.

À noite, ao chegar em meu apartamento, o computador me dá as boas-vindas. Em seguida, avisa-me de meus compromissos, que meu café ficará pronto em dois minutos, reunião na casa do Salazar para comemorar o nascimento de seu filho, que o prazo final para pagamento de meu tributo anual expira em dois dias e sugere que eu o faça hoje.

Esta semana, como todas as anteriores, um dia foi igual ao outro sem nenhuma novidade. No noticiário noturno, as notícias de sempre: pessoas que matam por motivos banais, a luta das autoridades contra os traficantes de drogas e os políticos com suas manobras indecentes e mesquinhas. É a única hora do dia em que sinto que o mundo permaneceu inalterado durante tanto tempo. Mudou apenas o ambiente. O ser humano permanece praticamente igual, como se fosse a única coisa imutável no universo. 

Domingo de manhã, arrumo minha mala e viajo para uma estância turística. Estrada boa e bem sinalizada. Quilômetros e mais quilômetros com a mesma paisagem desértica.

Foi um dia agradável e muito caro, mas valeu a pena. Pela primeira vez soube o que é entrar em uma piscina cheia deste líquido tão precioso e caro que é a água. Também pude ver e tocar, em uma grande estufa, as formas que a natureza é capaz de produzir com tanta perfeição. Inúmeras espécies vegetais preservadas como se fossem tesouros da humanidade, como a tão falada rosa das canções e poemas antigos e a tal de orquídea que fascinava tantas pessoas com sua beleza. E pensar que no passado tudo isso estava espalhado por aí como parte integrante da natureza e do dia a dia das pessoas, e hoje temos que viajar quilômetros e pagar uma pequena fortuna para entrar numa piscina, tocar uma planta, sentir o perfume de uma rosa...

No caminho de volta, relembrei o que conheci nos livros e filmes antigos e invejei o homem do passado. Queria ter nascido naquele tempo. Desfrutado das coisas mais simples e corriqueiras da vida, como passear na praça com o cachorro ou comer uma fruta no pé. Passear em um campo com grama, rios e árvores. Andar pelas ruas sem ter receio do sol. Sentir os pingos de chuva caírem no rosto... Sem dúvidas, eu seria mais feliz. Seria livre perante a natureza e não como hoje, vivendo em uma colmeia, andando por galerias subterrâneas como os extintos tatus e toupeiras, vendo no sol, que um dia foi a fonte de vida, hoje um inimigo mortal, pagando muito caro pela água que um dia correu livre pelos rios, vendo o verde da natureza dentro de uma estufa... A sociedade evoluiu, mas o mundo não. Ele foi destruído gradualmente por homens gananciosos que colocaram seus interesses mesquinhos, pessoais e políticos à frente do futuro humano.

Segunda-feira é o começo de mais uma semana como todas as outras. Acordar cedo, trabalhar, voltar para casa, jantar e dormir. E assim passam os meses e os anos, e eu tocando a vida.

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