O telhado da casa da dona Dita
Dona Dita ficou conhecida na cidade de Charmosinha por ter o estabelecimento comercial mais popular da região, que ficou destelhado depois da última tempestade. Foi um aguaceiro como nunca se viu, molhou tudo e todos.
Nos fundos do estabelecimento, dona Dita construiu uma pequena casa onde mora com seu único filho, Betinho, de trinta e dois anos. Ele não é muito chegado ao trabalho, mas consegue de alguma forma administrar o estabelecimento da mãe, que se limita a atender os clientes, já que foi ela quem o montou com muito sacrifício e suor no auge dos seus vinte e poucos anos.
Os negócios despencaram depois que acabou a construção da usina hidrelétrica, há quatro anos. Época de faturamento gordo, casa cheia, clientela assídua disposta a gastar e se divertir.
Sem dinheiro para cobrir a reforma do estabelecimento, foi procurar o prefeito da cidade, seu Belô, o único que poderia bancar um novo telhado e a compra de novos móveis.
— Dona Dita, essa quantia é absurda! A prefeitura não pode pagar reforma em estabelecimento comercial, além disso, o seu nunca recolheu impostos!
— Sei muito bem disso, seu Belô! Não é o dinheiro da prefeitura que eu quero. É o seu. O senhor é fazendeiro de gado e dono do laticínio e ajudei muito a te eleger! O senhor não imagina quanta conversa fiada eu e as meninas passamos nos eleitores, além do que tivemos que fazer para convencê-los.
— Reconheço seu esforço e o das meninas, mas como vou justificar em casa um empréstimo pro seu estabelecimento?
— Mas eu não falei em empréstimo!
— Meu Deus! A Verinha vai me comer o fígado!
— Esqueci que em sua casa o senhor não veste calças.
— Não fale assim, dona Dita! A Verinha é formada em contabilidade, por isso, administra os negócios.
— O senhor tem a obrigação de me ajudar. Meu estabelecimento é tão importante para a cidade quanto a coletoria, o Fórum, até mesmo a Câmara de Vereadores.
— Que absurdo, dona Dita! Me poupe!
— E não é, prefeito? Onde é que os vereadores, o juiz, o delegado e o promotor vão aliviar o estresse do dia a dia? Quantos casamentos minha casa já salvou? Sem falar dos maridos em quarentena, dos garotos transpirando hormônios que foram se iniciar e aonde o senhor ia se divertir antes de dar o golpe do baú?
— Epa! Eu amava a Verinha e conquistei seu coração!
— Não duvido de seus sentimentos e de seu poder de conquista, prefeito! A Verinha era tão linda, parecia uma princesinha que se levantou das páginas de um livro de contos de fadas, e o senhor era um João Ninguém, lavrador e morador de um barraco fedorento na fazenda do Belarmino. Não vou negar que o senhor era bonitão e tinha uma lábia de quiabo!
— Tá bom, dona Dita! Preciso pensar.
Dita chega bem perto do ouvido do prefeito e cochicha.
— Então pensa na Florinha, sua protegida. Ela e o quarto ficaram ensopados. E o que ela não conseguiu secar com a toalha... Teve que pôr no sol. — Depois, se afastou do prefeito, que ficou com ar pensativo.
— Amanhã vou vender umas vaquinhas e te dou o dinheiro.
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