O véio Tuca
O corvo Carvão está muito eufórico com a organização de mais um evento na mata. Desta vez é para a comemoração do aniversário de 23 anos do véio Tuca, o tucano mais velho da área, que, dizem as más línguas, está fazendo hora extra na mata, pois já passou da hora de sair desta pra melhor. Seu grande bico não tem mais cor, além de faltar a ponta do lado de cima, enxerga muito mal, seu corpo está magro e faltam penas por todo ele, parece até um frango meio depenado, mas ainda vivo.
O Carvão quer fazer deste evento um marco em suas realizações, muito maior do que foi o aniversário da dona Onça, onde reuniu, no mesmo local, todos os bichos que a pintada gosta no prato e não se serviu de nenhum. Outro evento que saiu tudo bem foi o casamento da chimpanzé Chita com o Chito, que conseguiu convencê-los a não fazer nenhuma macaquice durante a cerimônia, só depois.
No aniversário do véio Tuca, quer agradar a todos e não quer ouvir nenhuma reclamação desta vez, o que é impossível. Para agradar às aves, contratou três grupos musicais: Os Passarinhos, Os Bicudos e Os Penosos. Para os insetos, Os Besouros, Os Grilos e Os Pirilampos. Para os répteis, o Cobra Branca e Os Tartarugas, e para os mamíferos, o Pantera e o Camelo. Os anfíbios ficaram sem atrações e os peixes não foram convidados, por motivos óbvios.
A festança começou com uma performance da senhorita Pig, a porquinha mais charmosa da mata, em seguida o sapo mais azarão do mundo, o Caco. As fêmeas de escaravelho, caruncho, vira-bostas e serra-paus foram ao delírio na apresentação dos quatro vindos de Livre Pum, Os Besouros.
Não demorou muito e a galera reclamou da falta de rango, principalmente os mamíferos. O corvo disse para todos: Se vira na mata! Só não vale comer os convidados!
O ápice da festa será o momento em que o véio Tuca subirá ao palco com seu passinho lerdo e fará um breve discurso com sua voz rouca, falha e quase sumindo. Se alguém entender alguma coisa, tudo bem, do contrário, valeu do mesmo jeito.
O som estava rolando solto quando o papagaio Taga Rela sobrevoou o terreiro gritando: O véio Tuca morreu! O véio Tuca morreu! O véio Tuca morreu!...
O corvo Carvão voou até a árvore do tucano e, quando chegou, encontrou o véio Tuca caído no chão com as perninhas esticadas para cima, com o bico aberto e os olhos estatelados.
Os bichos rodearam o véio. Estavam comovidos. O sábio ancião estava morto.
Tadinho, cair da árvore nesta idade é fim de linha! Comentou a arara Zulona.
O porco Rabicó fez seu comentário: Pra morrer basta estar vivo!
O urubu Carnição não fez nenhum comentário, mas seus olhos estavam arregalados e inquietos.
Ao redor do corpo durinho e frio, fizeram a oração de entrega do corpo à natureza e o depositaram no meio da mata.
Voltaram para o terreiro. O papagaio Taga Rela e os chimpanzés subiram no palco e agitaram os bichos:
A festa vai até o amanhecer, galera!
Uu! Uu! Tererê!
Uu! Uu! Tererê!
Uu! Uu! Tererê!...
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