Uma noite fria

No piso gelado da calçada, um homem descansa seu corpo envelhecido sobre uma lâmina de papelão, outra um pouco maior, o cobre.

A crueldade do frio não o deixa dormir. O corpo está cansado pelo esforço de andar o dia inteiro à procura de pequenos objetos no lixo, que vendeu e comprou alimento. Também está cansado pelo desgaste físico acelerado pela vida sedentária, a bebida e a desilusão.

Lembranças nostálgicas tomam conta de sua mente. Tenta desviar o pensamento para fatos mais recentes, porém, uma força maior que sua vontade traz de volta velhas recordações que imaginava já terem sido apagadas pelo tempo.

Lembra-se de quando era um menino cheio de sonhos que iria conquistar o mundo e, presunçoso, de entrar para a história, e ao envelhecer olharia para trás orgulhoso do caminho que trilhou, de suas grandes realizações e de ter deixado sua prosperidade: seu nome marcado na carne de filhos e netos.

Sua mente insiste em revisitar mais lembranças, como a Rose, sua paixão de adolescente. Como era linda e alegre! Sorri com o canto da boca e sua mente busca outra lembrança boa: Sophia e seus grandes olhos azuis. Vira-se de lado, tentando despistar sua mente. Não tem como, é só fechar os olhos que as imagens vão passando como numa grande tela de cinema.

A imagem de um sorriso infantil lindo e inocente estampa em sua mente: sua filha Dóris. Onde será que você está agora? Talvez nem se lembre mais de ter um pai.

O frio tem a intenção de maltratar seu corpo. Ele ajeita o papelão. Estudou. Leu muito. Foi até chamado de intelectual por seus amigos. Seu pai, um operário, se orgulhava do filho assíduo nos estudos e dedicado em seu trabalho. Ele se foi antes de ver seu rebento chegar onde sempre disse que chegaria. Ainda bem que ele não viu! Pensou o velho.

No alto de um muro, um gato pardo observa a noite. O velho observa o animal. Já fui belo e vigoroso como você! Fecha os olhos e lá vêm mais lembranças que o incomodam. Vira-se de novo e fica de barriga para cima. Olha para o céu poluído e vê meia dúzia de estrelas. Fitou a mais brilhante e perguntou a ela: Por que você nunca brilhou pra mim?

O sono dá a entender que as lembranças foram embora, mas vieram os questionamentos. Tive tantas ambições. Sonhei tão alto. Por que hoje durmo nas ruas? Esta linha de pensamentos o incomodou mais que as lembranças. Sempre fui justo. Escolhi uma vida reta. Disse não ao errado. Procurei ser um cristão. Onde errei?

Ajeita melhor o papelão. Coça os olhos. Abraça o próprio corpo para se aquecer. Aposto que os que foram injustos comigo estão agora deitados em camas macias e aquecidos com bons cobertores.

Ele adormece. O frio congelante das madrugadas de inverno e os pensamentos não o incomodarão mais. O sono será eternamente profundo.


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