Nossos salvadores
O planeta Marte não é mais o mesmo. A paisagem avermelhada agora tem outras cores em seu cenário. Sabe-se que lá não mora nenhum marciano verdinho, por enquanto, mas em breve receberá habitantes da cor creme e a melanina desse novo povo poderá sofrer alterações devido aos gases da atmosfera e ao calor sufocante da superfície, e quem sabe daqui a algumas gerações eles se tornem verdinhos.
Muitos anos se passaram e um montão de foguetes despejou caixas e mais caixas na superfície avermelhada do planeta. Em seguida, um grupo de quatro astronautas-operários abriu as caixas e começou a construção de uma base. Foi um trabalhão, mesmo com a ajuda de robôs. As dificuldades encontradas passaram tão, tão, tão distantes do projeto imaginado pelos idealizadores, que houve um momento em que os operários passaram a acreditar que a melhor forma de resolvê-los seria abandonar tudo, mas lá na Terra, os homens do dindim bateram o pé e disseram: Vocês vão conseguir!
Além dos alojamentos, montaram a cozinha com refeitório, os laboratórios de especialidades, o banheiro e as duas principais partes do complexo: a bomba de captação de água no subsolo e a engenhoca de pegar essa água, quebrar sua molécula e assim, obter oxigênio e hidrogênio. O primeiro gás sabemos para o que serve e o segundo será para gerar energia. Um pouco além dos alojamentos, montaram uma grande estrutura arredondada, que ganhou o nome de biosfera, para produção de alimentos orgânicos, ou seja, só vegetais.
Pronto! Conseguiram montar tudo e a base está pronta. Resultado de décadas de muito trabalho, dedicação e muito, muito, muito dindim para concluir o projeto-sonho para salvar a raça terrestre após a extinção lá na Terra. O primeiro grupo de homens chegou ao planeta. Cinco renomados astronautas-cientistas que vão acionar os mecanismos de captação de água, de produção de oxigênio e, por fim, batizar a base com transmissão ao vivo para a Terra e com direito a champanhe Moët & Chandon! A base recebeu o nome de Base Musk em homenagem ao seu idealizador, o sul-africano-canadense, naturalizado norte-americano, Elon Musk, aquele menino rico que sonhava em construir um foguete e viajar para Marte. Pois, bem! O menino rico cresceu bastante, se tornou um grande empreendedor e ficou milionário. Inovou, investiu, realizou e ficou bilionário. Ele não viveu o suficiente para realizar seu sonho infantil, mas após anos e anos investindo em tecnologias, deixou pronto o caminho para o homem pisar naquele solo seco e avermelhado.
Os astronautas-operários ficaram chateados por não batizarem a base, afinal, foram eles que fizeram todo o trabalho braçal, inclusive testar todo o sistema de captação de água e produção de oxigênio, e aos astronautas-cientistas coube somente apertar um botão e levar todo o mérito. Um astronauta-operário declarou: Essa garrafa de champanhe foi o primeiro item de sujeira produzido no planeta, marcando nossa presença porcalhona.
Com tudo pronto e funcionando, receberam o primeiro grupo de cientistas moradores. Passados alguns meses, outro grupo. Mais alguns meses e mais grupos chegaram, até que a Terra passou a enviar grupos de cientistas voluntários. Eram tantos que o administrador da base, alguém de bom senso, levantou a mão e reclamou: Ô pessoal aí da Terra, parem de mandar gente para cá! Isso aqui tá virando um pardieiro com um bando de gente amontoada! Precisamos de uma ampliação das instalações.
Bom! Ampliação feita e concluída. Hora de mandar mais gente para a base. Ricos, cientistas, aventureiros, desgostosos com a vida e gente em busca de fama, todos com muito dindim, foram os novos habitantes do planeta Marte. A base já estava superlotada e não cabia mais ninguém, e novamente o administrador reclamou. Lá na Terra, não gostaram muito da reclamação e cancelaram as viagens programadas.
A primeira questão que gerou problemas foi a dos arrependidos. Reclamavam: Que vida mais chata nesse lugar! Mais chato ainda foi quando foram lembrados do contrato de dois anos. Putz! Ferrou. Responderam.
O projeto de colonização de Marte está concluído e quem foi, foi, e quem não foi, não vai mais. Encerraram o envio de pessoas e materiais, e a estrutura complexa para manter vivo o ser humano estava consolidada. Agora, esperar que os habitantes sobrevivam e se reproduzam, concretizando o objetivo da colonização, ou seja, preservar a espécie humana para que, depois da extinção em massa lá na Terra, esses terrestres-marcianos possam voltar e recolonizar o nosso querido planeta azul, com essa espécie que é a mais inteligente, evoluída e única que conhecemos e, o mais importante, filhos do Grande Criador.
A história não acaba aqui. O tempo passou, os novos moradores marcianos formam hoje uma população de quase quatro centenas de indivíduos organizados e estabelecidos na Base Musk. Produzem seu próprio alimento e o ar que respiram. A equipe na Terra enviou para lá todos os itens necessários para a sobrevivência e autonomia da base, mas com o tempo viram que faltaram alguns itens e outros acabaram. Mandaram uma listinha de necessidades para a Terra e receberam a resposta: Vai demorar um bocado de tempo para chegar!
O carinha do balcão de atendimento do setor de distribuição, ou almoxarifado, era o marciano mais odiado do planeta. Regulava tudo.
— Preciso de uma escova de dente nova.
— Me deixe ver a velha. — Após uma olhadela...
— Ainda tem cerdas.
— Sim! Mas não limpa nada!
— Ainda tem cerdas.
E era assim com tudo e no refeitório não era diferente.
— Batata de novo!
— Sim. O setor agro colheu 50 toneladas de batatas. Vai ser batata todo dia durante muitos dias. Vai se acostumando com batata cozida, batata frita, batata assada, purê de batata, salada de batata... E a próxima colheita será de abóbora!
A situação piorou quando os carnívoros, quase oitenta por cento da população, promoveram um motim gritando: Quero carne! Não sou cavalo pra comer mato! Os brasileiros e argentinos do grupo gritavam: Quero churrasco! Os americanos: Quero hambúrguer! O administrador tentou argumentar que não havia condições de criar animais na base. Vacas, nem pensar! São muito grandes. Que a criação de galinhas não deu certo, pois, além de flutuarem na biosfera, destruíam as lavouras de legumes e verduras, mas não teve jeito. Não convenceu ninguém e continuaram a pedir carne.
A única rádio da base, a Musk FM, também está com problemas. Há tempos tocando as mesmas músicas. Lá na Terra, receberam a mensagem: Pelo amor de Deus! Mandem outro lote de MP3s. Ninguém mais aguenta ouvir Lionel Richie, Mariah Carey, Shakira, Celine Dion...
Num belo dia quente, como sempre, chega uma mensagem da Terra: Vamos todos morrer! Um asteroide gigantesco vai colidir com a Terra em poucos anos! Vamos ser extintos como os dinossauros foram no Cretáceo! Boa sorte a vocês: o futuro da espécie humana! Deus é fiel!
Nos meses seguintes, vários foguetes chegaram a Marte trazendo inúmeros terrestres que puderam pagar uma fortuna pela passagem. Diferente dos filmes de ficção, não havia conforto algum nos foguetes, era como uma lata de sardinhas gigantesca.
O administrador da base não gostou nem um pouco de ver chegar aquele bando de excêntricos e famosos e reclamou: Onde vou acomodar tanta gente? Não tem comida e nem alojamento para todos!... Mandou uma mensagem para a Terra: Parem de mandar gente para cá! Vocês não mandaram estrutura e suprimento para tanta gente! Recebeu como resposta: Dá um jeito! Já temos problemas demais aqui e esta colônia é o futuro da espécie humana!
Bom! Sem mais o que fazer, o administrador deu um jeito na situação. Alguém com senso de humor fez uma piadinha: Com tanta gente amontoada, é melhor mudar o nome de “Base” para “Comunidade”!
Um longo tempo se passou. Sem mais comunicação com a Terra, ninguém em Marte sabe ao certo da dimensão do estrago feito pelo asteroide, a não ser que o planeta já era, que estava só o pó, literalmente, e com o povo, teoricamente, extinto.
O administrador da base ouve as queixas do chefe da manutenção.
— Senhor, tá faltando tudo!
— Tudo o quê?
— Tudo! As roupas estão acabando e não temos estoque de tecidos e nem uma tecelagem. Acabaram as botas também. Não temos mais fita adesiva para consertar as mangueiras dos respiradores, que estão muito velhas e ressecadas. A melhor chave de fenda espanou e não tem nenhum tipo de parafuso no estoque.
Apesar do semblante de preocupação, o administrador tem a solução.
— Envie um pedido à Terra com a observação: Urgência urgentíssima.
— Senhor, a Terra foi pro saco. Esqueceu disso?
O homem fez aquela cara de tonto...
— Sua equipe tem que dar um jeito nisso! É para isso que estão aqui!
— Sim. Mas como?
Ambos ficaram silenciosos por alguns instantes, sem saber o que fazer e pensar.
— Senhor, temos outro problema e esse é bem grave.
— Qual? O papel higiênico acabou há anos!
— Pior que isso. A engrenagem principal da bomba d’água quebrou um dente.
— Conserte, então!
— Como? É a última. Não posso tirá-la. Ficaremos sem ar. A Terra não mandou um torno mecânico e não temos como usinar outra engrenagem.
— Aqueles imbecis na Terra não pensaram nisso?!
— Acho que não. Ah! O sistema eletrônico dela, de vez em quando, dá uns bugs... Um dia vai pifar!
— Troque-o antes de isso acontecer!
— Também, o último.
O homem pôs as mãos na cabeça e respira fundo. Fica pensativo por alguns instantes, olhando para o ambiente.
— Isso tudo não faz sentido. Viemos para cá pra garantir o futuro da raça humana! Sem água e sem ar... Morreremos!
— É!
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