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O roubo do romantismo

Joãozinho está brincando sozinho no campinho de terra quando chuta a bola com tanta força que ela cai no meio do matagal ao lado. Foi até lá procurá-la. Anda para lá e para cá até que cai em um buraco de uns três ou quatro metros de profundidade, camuflado pela folhagem. Fica atordoado por alguns instantes até recobrar os sentidos. Está todo dolorido e mal consegue mexer a perna esquerda. Ela dói muito. Acha que está quebrada. Com certo esforço, consegue pegar o celular no bolso da bermuda e liga para sua mãe, que imediatamente aciona o Corpo de Bombeiros. Meia hora depois, Joãozinho está são e salvo nos braços de sua mãe.                 Esta história seria muito diferente em outra época do passado.   O início é o mesmo. De dentro do buraco escuro, Joãozinho só consegue ver a entrada lá em cima. Não há como escalar as paredes de terra, aliás, mal consegue se levantar, sua perna está doendo cada...

Ironia

O homem churrasco. Assim, seu Jaime era conhecido pelos amigos, parentes e vizinhos. Era todo final de semana e não perdia uma oportunidade entre segunda e sexta-feira que também justificasse assar umas carninhas. Era tão fissurado por carnes que tentou abrir um açougue, mas não deu certo e continuou sendo engenheiro. Após se divorciar, foi morar sozinho numa casa térrea. No quintal, construiu uma churrasqueira moderna com todos os apetrechos de um bom churrasqueiro, além das coleções de aventais, espetos e facas de que se orgulhava tanto. No sábado passado, após um churrasco com os amigos e regado a muita cerveja, já mamado, seu Jaime deitou-se no sofá fumando. Adormeceu. Ou melhor, capotou. O cigarro desprendeu-se de seus dedos, caindo no tecido do sofá. A brasa penetrou o tecido e foi se espalhando entre a palha de enchimento, queimando-a lentamente sem incendiar. Na segunda-feira, pela manhã, os vizinhos estranharam o carro do seu Jaime ainda na garagem e o cachorro, desesper...

Dois mais dois

Lá no passado, há muito tempo, bem antes de o Cristo nascer, um grego chamado Pitágoras, que, a meu ver, era o tipo que não tinha o que fazer na vida, resolveu criar a tal de matemática, infernizando a vida de todas as gerações após a sua e até as do final dos tempos. Seus admiradores e seguidores deram continuidade à sua criação, deixando tudo mais complicado do que já era. Tudo seria mais simples só com a soma e a subtração. Você vai ao mercado e compra um produto de 3 reais e outro de 4. Mentalmente, soma os dois e dá 7. Entrega ao caixa uma nota de 10 e, mentalmente, subtrai o valor dos dois: dá 3 de troco. Simples assim! É a matemática básica do dia a dia! E é dessa que eu preciso! Aula de álgebra. Números e mais números. Letras A, B, X, Y. Parênteses. Colchetes. Chaves... Muitos números e símbolos pro meu cérebro processar! Maldito Pitágoras! Não sei para onde você foi após morrer, mas espero que esteja queimando no inferno! O professor Moacir passa por minha carteira e vê que nã...

Entrevista com o cachorro Eugênio

Na fazenda Esperança, o único cão da propriedade se posiciona diante da câmera para ser entrevistado.   Qual seu nome? Eugênio.   Tem apelido? Sim. Genóca.   É bom ser um cachorro de fazenda? É bom sim! Nóis, os cachorro, a gente somos muito esperto e inteligente, ao contrário da maioria dos bicho aqui da fazenda. É um bando de cabeçudo!   Genóca, você não acha que cada bicho tem o seu próprio jeito de ser? Acho. Mas tem alguns que não dá pra engolir!   Quais? As cabra são teimosas. Como é difícil elas aprender alguma coisa!   Você tem alguma função específica aqui na fazenda, ou é só um cachorro como qualquer outro? Não! Eu sou o guarda daqui! Não deixo nenhum estranho entrar sem dar o alarme e se ele insistir eu vou direto na canela dele e mordo pra valer! Além disso, ajudo o patrão, que é meu dono, a cuidar dos bicho e principalmente das cabra.   Então você é como um cão pastor? O que é isso?   Cão ...

Caixa

Qualquer receptáculo, de madeira, papelão, metal… destinado a guardar ou transportar objetos, pode ser chamado de caixa. A mocinha do supermercado que passa a nossa compra e depois nos apresenta a conta não é um receptáculo, mas também é chamada de caixa. Não só ela, mas a mocinha do banco, da farmácia, das lojas... Gostamos de caixas e sempre as guardamos, principalmente quando são bonitas ou que nos dão a impressão de servirem para guardar alguma coisa, como as de sapatos. Passa um ano, dois, três… E a caixa de sapatos continua guardada e essa “alguma coisa” nunca aparece.   Algumas pessoas conseguem achar utilidades para as caixas e fazem uso delas organizando gavetas e armários. Às vezes é tanta caixa que faltam armários e gavetas, e a solução é pegar o que estava em duas, ou três, e acomodar em uma. Virou bagunça de novo e, quando a pessoa precisa encontrar algo, é um desespero. Outra situação é quando a organização é tão bem feita que nunca mais se acha o que se procura. Pr...

Filhos X Vacas

A cidade amanheceu com o povo comentando pelas esquinas e portões a morte do Agripino. — Pronto! Já vai começar a briga pela herança do falecido. — Comentou uma mulher com à sua vizinha. O Agripino, nascido e criado em Charmosinha, herdou de seu pai uma pequena fazenda com meia dúzia de vaquinhas magricelas, alguns porcos e um monte de galinhas. Trabalhou duro durante anos para fazer daquela terra uma verdadeira fazenda: centenas de cabeças de gado, uma pocilga enorme e um belo plantel de galinhas. Tudo que está bem pode ficar melhor ou pior, depende do que se planta. O Agripino estava com pouco mais de cinquenta anos e filhos formados quando se envolveu com uma linda jovem de vinte e dois anos. Tudo melhorou com a vida secreta que levava. Uma amante jovem e ardente que o fazia se sentir como um adolescente. Ter uma amante custa muito caro. Um dia, o Agripino vendeu umas vaquinhas e comprou uma casa para ela, num outro, mais algumas cabeças para a mobília e depois outra venda para comp...

Visão e ação

Duas pererecas muito bem posicionadas em um galho de árvore bem próximo da água do rio. Vamos chamá-las de Perereca Um e Perereca Dois. O local é seguro. A Dois é a mais velha, portanto, um pouco maior e mais experiente. A Um, além de jovem, é míope de um olho e astigmática do outro. Uma libélula voa por perto. As duas, imóveis, seguem com os olhos o vai e vem dela. Quando a libélula passa por elas, a Dois... Nhac! E se delicia com o petisco. A Um reclama com a amiga. — De novo! Você não me deixa pegar um inseto! A Dois não disse nada e fez cara de quem diz: O que posso fazer? Sou mais esperta! No dia seguinte, a Um chega ao galho usando óculos. A Dois olhou preocupada para a colega como quem pensa: Hum! Acho que tenho que ficar mais esperta. A Um, com um leve sorriso estampado na cara, olha de lado para a colega e pensa: Agora vai ser competição! Não demorou muito e uma libélula sobrevoa o local. Um e Dois estão atentas e imóveis. A Um se ajeitou no galho devagarinho, apoiou bem as ...

Ômega

No alfabeto grego, ômega é a última letra das vinte e quatro existentes. É representada por um símbolo que lembra uma ferradura. Será que dá sorte também? Ferradura dá! Não sei qual o uso dessa letra, mas sei que todo mundo conhece o tal de ômega 3. Agora, duvido que toda essa gente saiba pra que servem aquelas bolinhas de softgel.   O Dr. Silvano me orientou a consumir ômega 3. D isse ele ser ótimo na minha idade (avançada). Perguntei a ele: O que é ômega 3? Sua resposta foi : É um ácido graxo. Pensei comigo : Que legal! E fiz outra pergunta : O que é um ácido graxo? Ele fez aquela cara de quem não estava a fim de responder, mas foi educado. Ele é importante para a produção de energia, o transporte de gorduras do fígado para os tecidos do corpo, o crescimento normal das células, hidratação da pele, ajuda a combater os radicais livres e, com isso, a reduzir o envelhecimento, etc. Gostei desta última função! Mesmo constrangido, arrisquei mais uma perguntinha: O que é esse tal...

A vizinha e o herói

A dona Janete era uma mulher bem alegrinha e mãe do Fernandinho e da Soninha. Duas coisas eu não gostava nela: a mania de ficar me dando broncas e o seu sorriso. Eu dizia para minha mãe que a dona Janete tinha um sorriso arreganhado, e ela me corrigia: Arreganhado não, forçado! Mas a dona Janete tinha outras duas coisas que eu adorava: uma geladeira e uma TV! Geladeira era um item caro para os pobres como meus pais, e a TV um luxo mais caro ainda. O seu Cláudio, marido da dona Janete, tinha um bom emprego e podia dar à sua família o que o meu pai ainda não podia dar a dele. Todo domingo de manhã, após voltar da igreja, eu, meus irmãos e mais algumas crianças da rua invadíamos a sala de estar da casa da dona Janete para assistir a um seriado de bang-bang na TV em preto e branco. Incrivelmente, ficávamos em silêncio, olhos e ouvidos atentos às cenas e diálogos do nosso herói enfrentando homens malvados e cruéis. Nossa atenção só era quebrada quando a dona Janete vinha nos servir limonad...

O tumulto

Trinta e quatro pessoas com ferimentos leves e dezesseis hospitalizadas, sendo duas com traumatismo craniano, cinco com cortes profundos na cabeça e uma com o olho direito furado. Este foi o saldo do tumulto ocorrido durante a festa de casamento do casal Mônica e Roberto no salão de festas da paróquia Santa Rita. A confusão começou no final da segunda hora da festa. Em poucos minutos, o que parecia ser uma pequena discussão entre dois convidados e o pai da noiva, seu Valdemar, fez do salão de festas uma arena romana, onde cada indivíduo lutava para se defender e sair vivo. Cadeiras e mesas voando. Latas de cerveja e refrigerante cruzam o espaço e atingem cabeças. Socos. Pontapés. Muita correria. Lustres, portas e janelas, tudo destruído. Nem os músicos, que alegravam a festa, escaparam da fúria dos convidados. Foram alvo de objetos voadores e tiveram seus instrumentos destruídos. Dois carros do resgate e mais algumas ambulâncias chegaram para socorrer os feridos. A maioria recebeu aten...

Uma noite fria

No piso gelado da calçada, um homem descansa seu corpo envelhecido sobre uma lâmina de papelão, outra um pouco maior, o cobre. A crueldade do frio não o deixa dormir. O corpo está cansado pelo esforço de andar o dia inteiro à procura de pequenos objetos no lixo, que vendeu e comprou alimento. Também está cansado pelo desgaste físico acelerado pela vida sedentária, a bebida e a desilusão. Lembranças nostálgicas tomam conta de sua mente. Tenta desviar o pensamento para fatos mais recentes, porém, uma força maior que sua vontade traz de volta velhas recordações que imaginava já terem sido apagadas pelo tempo. Lembra-se de quando era um menino cheio de sonhos que iria conquistar o mundo e, presunçoso, de entrar para a história, e ao envelhecer olharia para trás orgulhoso do caminho que trilhou, de suas grandes realizações e de ter deixado sua prosperidade: seu nome marcado na carne de filhos e netos. Sua mente insiste em revisitar mais lembranças, como a Rose, sua paixão de adolesc...

A princesa e o sapo

Glorinha cresceu romântica e sonhadora. Os livros de contos de fadas eram suas melhores companhias. Devorava as histórias e as fantasiava em sua mente. Esperou cada segundo de sua vida pelo grande dia em que encontraria seu sapo, depois beijá-lo amorosamente e vê-lo se transformar num lindo príncipe encantado, casar-se e viver feliz para sempre ao seu lado no mais belo dos castelos. O grande dia chegou aos dezessete anos. O príncipe não era exatamente um nobre. Era um caminhoneiro. Casou-se grávida. Aquele castelo de inúmeras dependências e serviçais era, na verdade, dois cômodos construídos às pressas nos fundos do terreno da casa dos sogros. Alguns anos se passaram. Um, dois, três filhos sem sangue nobre. Seu lindo corpinho de princesa agora está mais para Madame Min. O príncipe, mais para Frei Tuck. Engordou, cresceu barriga de cerveja e ficou careca. Passaram-se mais alguns anos. Os três meninos cresceram e não se casaram com princesas. O príncipe morreu jovem. Não em u...

Rico por um dia

O Ricardo é um cara simples e de origem humilde, e com muito sacrifício tenta concluir a faculdade. Conseguiu seu primeiro emprego: um estágio na área de marketing em uma agência de propaganda bem longe de sua casa. A agência promoverá o lançamento de uma coleção de joias de uma grande grife a ser realizado no salão de eventos de um hotel cinco estrelas. O Ricardo está muito animado, pois, além de acompanhar seu chefe, o Paulo, pela primeira vez na vida, irá a um local tão chique.   O hotel é um desbunde. Chique é pouco para defini-lo. No salão, gente bonita e elegante circulando e conversando educadamente. O Ricardo está vislumbrado. — Paulo, quanta mulher bonita! E essa mesa de queijos é maior que a lojinha de frios lá do bairro! A de vinho se parece com uma adega! E a de pães e patês, deixa a padoca lá da vila no chinelo! — Pega leve e com educação, Ricardo. Não me faça passar vergonha! — alertou o chefe. O Ricardo está impressionado com tanta comida boa, mas não tira...

Fora de lugar

O futebol é maravilhoso! Os dribles. Os lances. As cabeçadas. O gol. Como é bonito driblar um, dois, três jogadores e marcar um belo gol que leva a torcida ao delírio! Que belo espetáculo! Como eu invejava meus amigos bons de bola. Eu, além de ter medo da bola, sempre tropeçava nela, levando a galera a cair na risada. Eu não gostava de futebol. Sabia apreciar e valorizar, mas era muito perna de pau. O que eu gostava mesmo era de música. Adorava ouvir rock e colecionava discos de vinil, os tais bolachões, alguns com capas magníficas. Os meninos se dividiam em três grupos: os que gostavam de futebol, os que gostavam de skate e os que não gostavam de nada disso e de quase nada também, como eu. Todo adolescente sonha em brilhar, ser notado, ser popular. É natural da idade. Eu, o garoto magrelinho e tímido, entrei numa de sair da invisibilidade e impressionar, principalmente, as meninas, que só tinham olhos para os bons em futebol e skate . E eu estava fora dos dois grupos. Meu amigo Mau...

Neve

Em nosso querido planetinha azul, acontecem inúmeros fenômenos naturais que intrigaram muitos pensadores no passado, mas nossa boa ciência já tratou de explicar todos, portanto, não há mais mistérios. Um desses fenômenos é a evaporação da água. Um mundão de partículas de água flutuando no ar, levadas daqui para lá, e de lá para cá, pela ação do vento. Elas são muito sociais, gostam de andar juntas e formam nuvens branquinhas, cinzas e pretas. Essa última é a perigosa, sempre aparece acompanhada de trovões, relâmpagos, raios e muita chuva. Isso, aqui nos trópicos, lá em cima do hemisfério norte e aqui embaixo do hemisfério sul, esse vapor de água encontra um frio de lascar taquara e se cristaliza formando a tal de neve, caindo em forma de chuva. Nas fotos, parece muito bonito o cenário todo branquinho, como se a paz reinasse por todos os cantos e os turistas estivessem felizes. Um amigo meu que é russo me disse que neve só é boa para estes turistas felizes. Segundo palavras dele: Viver ...

Do pó à lama

— Mãe, água é a melhor coisa do mundo! Severino nasceu no início de uma seca que castigou a região por quase sete anos. Pouco tempo após sair da primeira infância, viu pela primeira vez a tão falada água cair do céu. Ajoelhou-se no chão úmido com seus pais e irmãos, agradecendo a Deus pela dádiva. Logo depois, saiu correndo com os braços abertos como se quisesse abraçar todos aqueles pingos de água. A água encharcou o chão, brotando verde aqui e ali, e seu pai plantou as sementes do alimento dos próximos meses. Toda a alegria do pequeno Severino durou pouco. A seca voltou e se estendeu por mais alguns anos e ele viu novamente o solo esturricar e a criação morrer de sede. Invejava aqueles que moravam no sul, onde a água é abundante. Fechava os olhos e dava asas à imaginação quando ouvia o cancioneiro cantar “O sertão vai virar mar”*. Também invejou Noé quando conheceu a história do dilúvio. — Mãe, água é o símbolo da vida! Cresceu vendo sua mãe e suas duas irmãs caminharem, ...

Papel de pão

É comum as aptidões surgirem na infância. Meu amigo Fernandinho, com oito anos, já era um baterista. O Renatinho, da mesma idade, tocava saxofone. A Fátima bordava quase tão bem quanto sua mãe. O Norinho roubava coisas. O Valter sacaneava todo mundo, e eu gostava de desenhar. Todos os dias de manhã, meu pai comprava um filão de pão que vinha enrolado numa folha de papel celofane, que chamávamos de papel de pão. Ele guardava todos, pois sabia que eu gostava de usá-los para desenhar. Eram ótimos para isso. Eu também gostava de desenhar no asfalto com cacos de argila colorida. A rua ficava toda enfeitada. Vinham os carros ou a chuva e apagavam meus desenhos, mas eu não me incomodava e desenhava tudo de novo. Cresci e estudei desenho. Adorava desenhar. Passava horas na escrivaninha de meu quarto treinando e enchendo o cestinho de lixo com papéis embolados. Um dia, meu pai entrou no meu quarto e ficou me observando desenhar. O seu Antônio era um homem muito simples que sempre teve uma vida ...